1 Entre Paris e Londres
O caminho que levou do FSE de Paris em novembro de 2003
a edicao seguinte em Londres foi bem menos reto que uma simples travessia
do canal; passou por muito mais lugares e foi muito mais acidentado, e
gera questoes importantes sobre a atual situacao dos movimentos europeus
em seus processos de desterritorializacao e reterritorializacao.
A proposta de Londres como sede seguinte do FSE foi
apresentada em Paris durante a segunda edicao, a partir de um acordo entre
o Socialist Workers Party (SWP) e a Prefeitura de Londres (GLA).
Foi discutida e aprovada numa discussao fechada, daquelas que ainda abundam
em Foruns Sociais em diferentes partes como as reunioes que preparam
a pauta das Assembleias dos Movimentos Sociais. A decisao de apresentar
Londres como alternativa jamais foi debatida entre os movimentos ingleses:
na verdade, o GLA (e o grupo que o controla, uma minuscula tendencia do
Labour Party chamada Socialist Action, composta basicamente de assessores
do prefeito Ken Livingstone) jamais manifestara qualquer interesse no
processo, ao passo que o SWP, atraves de suas varias organizacoes de fachada
(Globalise Resistance, Stop the War Coalition, Project K etc.), embora
ativo no FSM e no FSE, esteve sistematicamente empenhado em tentar desmontar
o processo espontaneo de criacao e Foruns Sociais Locais em cidades como
Londres, Manchester, Leeds e Cardiff. A participacao do GLA foi uma exigencia
de certos atores-chave do processo europeu, como Attac Franca, para garantir
que o evento teria viabilidade financeira. Quando em dezembro o debate
sobre a organizacao comecou em Londres, foi uma surpresa para a maioria
dos envolvidos.
A partir dai, o processo nao poderia ter andado pior.
Num primeiro periodo, porque o SWP e o GLA colocaram como fundamentalmente
antitetica a participacao de organizacoes serias basicamente
os sindicatos, que apesar de discursos raivosos seguem apoiando o governo
Blair e redes e grupos organizados de maneira ad hoc e horizontal,
sem hierarquias administrativas nem centros de decisao. Comecava ai um
processo de negacao de todo a potencia de movimento desencadeada desde
metade dos anos 90, em favor de um pragmatismo politico provinciano que
atendia meramente as prioridades politicas dos dois principais grupos
envolvidos. Esse problema foi levado ao conhecimento dos outros atores
envolvidos a partir do continente (como COBAS, na Italia, Transnational
Institute, na Belgica, os diferentes grupos nacionais da Attac, o Forum
Social Grego etc.), e da Assembleia Preparatoria Europeia realizada em
fevereiro em Londres saiu um documento exigindo alguma forma de composicao
entre os verticais SWP, Socialist Action e sindicatos
e os horizontais todos os outros.
Uma coisa, porem, emperraria essa possibilidade: o segredo
de polichinelo que assombra a organizacao dos Foruns, qual seja,
a participacao disfarcada de partidos. Os grupos hegemonicos na Inglaterra
recusavam-se a reconhecer o problema como uma tensao entre partidos e
movimentos, porque recusavam-se a reconhecer-se como partidos. No pifio
processo de mbilizacao na Inglaterra, isso ficou escandalosamente
claro: reunioes setoriais nao-publicizadas eram realizadas
com diferentes areas (movimentos negros, muculmanos, mulheres etc.), quase
sempre dentro do predio do GLA, e quae sempre incluindo apenas grupos
cujas liderancas eram ligadas seja ao SWP, seja ao SA. Assim, os horizontais
seguiam denunciando a falta de transparencia, os verticais
seguiam fingindo que nao era com eles, e os europeus, embora
ativamente apoiand os horizontais, tinham dois limites claros
na sua intervencao: nao queriam arriscar a possibilidade de nao haver
um Forum (ameaca constante do GLA e dos sindicatos, dizendo que se isso
ou aquilo nao fosse como queriam, retirariam seu apoio financeiro), e
nao podiam discutir a fundo o problema da participacao de partidos politicos,
ja que iss seria desconfortavel para varios deles. Consagrou-se a ideia
da excecao inglesa que aquele processo era anormal,
mas hava que se leva-lo a cabo e tirar as licoes no fim.
De fato, foi um processo anormal: o nivel de intrasparencia
politica e financeira, incompetencia administrativa (para resolver problemas
basicos, como acomodacao e vistos, ou o site oficial, que alem de muito
tempo inoperante e pouco interativo, estava hospedado no servidor do GLA),
e mesmo truculencia (na intimidacao e expulsao de grupos e
individuos, e mesmo no trato com os europeus) levou a um ponto,
logo antes da Assembleia Preparatoria de julnho em Berlim, em que os grupos
italianos e franceses chegaram a circular publicamente a ideia de se retirar
do processo. O clima resultante, obviamente extremamente hostil aos verticais,
serviu para que em Berlim se aprovasse uma vitoria dos horizontais:
todos os espacos organizados autonomamente durante o periodo de realizacao
do FSE poderiam, se assim requisessem, constar da programacao oficial.
Os ultimos meses, porem, so viram a situacao piorar:
duas tentativas de golpe no processo de selecao de participantes das grandes
plenarias oficiais (o primeiro dos quais gerando a uma carta de varias
ONGs inglesas ameacando retirar-se do processo) e o fato que os dois orgaos
do processo de organizacao na Inglaterra o Comite Organizador e
o Comite de Coordenacao haviam claramente sido completamente postos
de lado pelo GLA, e que todas as decisoes administrativas importantes
agora eram em tomadas em reunioes fechadas entre assessores da prefeitura.
A definicao das plenarias, fruto de negociacoes intricadas entre verticais
e europeus, deixavam claras as intencoes dos dois grupos hegemonicos
em relacao ao Forum: o SWP querendo utilizar a exaustao o tema da guerra
e do Oriente Medio para manter a sua Stop the War Coalition andando e
aumentar a base do seu novo partido de fachada, Respect Coalition,
ele mesmo ja uma tentativa de capitalizar o movimento anti-guerra; Ken
Livingstone para aplicar mais uma camada de verniz vermelho
sobre um governo inteiramente liberal, insistindo na sua imagem de construtor
de uma Londres multicultural (tanto Livingstone quanto seu assessor para
assuntos raciais, Lee Jasper, foram indicados para falar na plenaria sobre
luta contra o racismo!). No geral, a agenda correspondeu ao provincianismo
do processo, e temas como a oposicao a Constituicao Europeia apoiada,
por sinal, pelos sindicatos ingleses ficaram em segundo plano.
2 Territorio oficial: Alexandra Palace
Na periferia norte de Londres, um local normalmente
utilizado para eventos musicais, ficava Alexandra Palace, onde a maior
parte da programacao oficial ocorreu. Um grande pavilhao com apenas algumas
reparticoes separando as grandes salas, o efeito acustico que oferecia
aos que tentavam acompanhar algum debate era a imagem do processo: uma
grande confusao de vozes reverberando. Alem de as plenarias, seminarios
e os painelistas serem muito menos interessantes que nos anos anteriores,
o espaco em tudo demonstrava todo o erro incorrido ao longo da organizacao.
As plenarias vagamente dedicadas ao terceiro mundo ficavam
num canto desprivilegiado; a comida era toda oferecida por servicos de
catering e embalagens plasticas e marcas corporativas eram visiveis por
todos os lados; o espaco de midia era minusculo e mal-equipado, enquanto
em todas as partes as diversas bancas de ONGs, sindicatos e partidos distribuiam
centenas de panfletos e papeis que podiam ser vistos pelo chao, em toda
parte.
Se algum esforco tivesse ocorrido no sentido de incluir
as partes mais criativas e produtivas dos movimentos europeus, isso obviamente
poderia ter sido diferente: voluntarios do Indymedia poderiam ter desenvolvido
centros mais eficientes e com computadores rodando software livre; a economia
solidaria e as varias cozinhas ativistas, relegadas aos espacos
autonomos, poderiam ter oferecido a comida; os exemplos sao muitos. O
unico servico voluntario do movimento empregado pelo FSE,
no final, foi a traducao oferecida pela Babels; mesmo assim, a relacao
da ultima com a organizacao do evento seguiu aos trancos e barrancos (em
vitude de pontos como o acesso ao site, a falta de solucao para o problema
de transporte e acomodacao etc.), a ponto de uma semana antes os tradutores
voluntarios estarem ameacando se retirar.
Nao, nao era aqui, onde a programacao era praticamente
homogenea (do ponto de vista politico) e vazia ou timida em materia de
propostas, que a acao estava; o processo tivera sucesso em eliminar qualquer
conflito e passar por cima do evento uma patina de consenso forcado. O
formato da grande plenaria, com seus experts falando de cima
do palco, tambem demonstrou seu esgotamento. Alexandra Palace era um estrato
geologico morto.
3 Desterritorios: os espacos autonomos
A exclusao do conflito do interior resultou na sua multiplicacao
e concentracao no entorno: o que se viu em Londres nao foi um, mas varios
espacos alternativos, praticamente constituindo um Forum a parte. A proliferacao
dos espacos foi consequencia, em grande parte, da ausencia de espacos
publicos na cidade; nao surpreendentemente, dois desses eventos (Radical
Theory Forum e Laboratory of Insurrectionary Imagination) ocupavam casas
ocupadas. Alias, essa foi a solucao autonoma para o problema
de acomodacao, que permanecia nao resolvido pela organizacao do FSE ate
uma semana antes do evento, quando o prefeito alugou o imenso e inutil
Millenium Dome, colocando-o a disposicao de tod@s que pagassem £10
(alem dos £30 de inscricao para o evento oficial).
E interessante notar que a edicao desse ano do FSE contou
com sua oposicao mais desideologizada ate hoje: mesmo na conferencia
da Acao Global dos Povos rede anticapitalista cuja existencia antecede
a do processo Forum e que lhe e extremamente critica havia um grande
numero de grupos que se manifestavam dispostos a participar com
um pe dentro e um pe fora. Tratava-se, antes de tudo, de ocupar
o espaco e fazer-se ouvido; que isso acabasse da forma como acabou foi
uma questao muito menos de oposicao de principios e muito
mais das circunstancias especificas do processo ingles, e do fato que
a Inglaterra vive, em varios aspectos, um Estado policial disfarcado:
o Beyond the ESF, maior dos espacos autonomos, estava sob vigilancia permanente,
sobrevoado por helicopteros e com policias postados a sua entrada para
tirar fotos e monitorar os fluxos.
As tensoes acumuladas ao longo da organizacao culminaram
no sabado em cerca de 300 pessoas ocupando a plenaria em que falariam
Ken Livingstone e Lee Jasper (o primeiro, possivelmente alertado pela
policia, cancelou sua participacao na ultima hora); organizada por grupos
como Wombles, a Rede Anticapitalista Norte-Europeia, Xarxa de Mobilitzacio
Global e Reseau Intergalactique e apoiada por Indymedia UK e Babels, ocupou
o palco por cerca de meia hora, estendendo uma faixa dizendo Outro
Mundo Esta a Venda, criticando o controle exercido pelo GLA sobre
o evento, e lendo manifestos da Babels e do Indymedia UK (o ultimo, sobre
a apreensao de seus servidores sob ordem do FBI).
No dia seguinte, a vigilancia se intensificou e cerca
de vinte pessoas foram seguidas no percurso entre o Beyond the ESF e o
centro de Londres, onde se juntariam ao Bloco Anticapitalista na marcha
de encerramento. Foram cercadas pela policia na estacao de Kings
Cross, onde quatro (italianos, um ingles e um grego) foram presas. No
ato final, em Trafalgar Square, um grupo irritado porque o que
a Assembleia Preparatoria em Bruxelas havia decidido seria um evento meramente
cultural havia se transformado num desfile para liderancas de SWP, Respect
e Stop the War Coalition tentou negociar sua subida ao palco para
denunciar as prisoes preventivas. Os voluntarios da Stop the
War Coalition (a quem a marcha havia sido subcontratada),
mesmo diante da mediacao de europeus como Piero Bernocchi,
da COBAS, chamaram a policia, que prendeu mais dois ativistas.
Seria desnecessario observar que o uso da policia pela
organizacao do FSE contra participantes e um precedente terrivel; mas
uma avaliacao que se contrasse nisso estaria esquecendo o principal da
experiencia desses dias: que os espacos autonomos foram, acima de tudo,
extremamente produtivos. Fossem as discussoes sobre como desenvolver uma pesquisa ativista e um ativismo de pesquisa no
Radical Theory Forum, os excelentes debates sobre precariado e imigracao
no Beyond the ESF, a analise do conceito de commons no Life
Despite Capitalism, a busca criativa e alegre de novas formas de organizar
protestos no Laboratory of Insurrectionary Imagination, houve um real
sentimento de convergencia, formacao de consensos e criacao de subjetividades;
uma oposicao desideologizada nao por falta de ideia e propostas,
mas por evitar binarismos faceis. Uma avaliacao mais profunda passa por
uma analise mais detalhada dos novos movimentos europeus.
4 Os movimentos europeus entre desterritorializacao e reterritorializacao
Muitas das forcas politicas atuantes na organizacao
do FSE sao a estratificacao de um momento de desterritorializacao nos
anos 60/70: por exemplo, o maio de 68 e o movimento anti-guerra. E sintomatico
que os dois grupos ingleses hegemonicos nao tenham nunca passado por nada
assim. A terceira edicao do FSE encontrou os movimentos surgidos na segunda
metade dos anos 90 numa encruzilhada, que abre possibilidades e chama
a superar o momento que passou.
Por um lado, ha os grupos que permanecem apegados a
identidade formada naquele periodo: os tempos heroicos dos Dias de Acao
Global, os protestos massivos contra instituicoes internacionais, que
chegaram a um impasse com a ameaca de violencia que paira no ar desde
Genova. Esses como a rede Dissent, que organiza a resistencia a
reuniao do G8 na Escocia, em 2005, e varios grupos londrinos sobreviventes
do falecido Reclaim the Streets!, como o Wombles vivem a tensao
de um fechamento do espaco publico e uma progressiva criminalizacao que
os empurra cada vez mais a uma rua sem saida, entre a dificuldade de abrir
um dialogo com a sociedade e os perigos de uma escalada de violencia.
Se aquele periodo foi de importancia imensa para a criacao de uma nova
subjetividade, de uma nova geracao politica, a mudanca no contexto politico
e a passagem a uma fase de guerra global permanente coloca questoes que
precisam ser respondidas o quanto antes o risco de nao busca-las
e o isolamento, a transformacao em subcultura. A condicao de sobrevivencia
daquela subjetividade e sua superacao.
Houve, em especial no Laboratory of Insurrectionary
Imagination, varias exploracoes de novas formas de organizar protestos.
Por exemplo, a tentativa frustrada pela policia de organizar
uma festa do transporte publico gratuito no metro (organizada pelo Yomango,
que se encarregou de mangar a comida e bebida, e o Planka,
da Suecia, que organiza a resistencia de trabalhadores e imigrantes contra
a privatizacao do transporte publico); a enfase ai estava nao no impacto
midiatico, mas no contato com o publico usuario de um dos servicos de
transporte urbano mais caros do mundo. Uma alternativa apresentada tanto
para isso quanto para situacoes de enfrentamento em grandes manifestacoes,
buscando fugir a alternativa de escalada de agressao, foi a do Clandestine
Insurgent Rebel Clown Army, cuja oficina no Beyond the ESF esteve lotada.
Uma critica que se faz (ha tempos, no chamado sul
global; mais recentemente, no norte) e que apesar dos
seus principios de horizontalidade e nao-representacao, o periodo das
grandes manifestacoes traia um retorno da politica representativa que
os novos movimentos condenavam: realizadas sempre no norte,
em meio a uma maioria branca e jovem, elas afirmavam que a resistencia
esta em toda parte, mas no fundo refletiam lutas que nao eram dos
seus atores. Isso e, por um lado, uma desconsideracao das especificidades
do contexto europeu o movimento de ocupacoes urbanas nao e apenas
uma luta de jovens brancos e mimados, mas uma demanda de uma
juventude precarizada pelas mudancas do capitalismo e as reformas do Welfare
State que se abre, ao menos potencialmente, as lutas de imigrantes, sem
papeis e desempregados. Por outro lado, tem um elemento de verdade: a
enfase nessas manifestacoes estava sempre na luta em outras partes, e
permaneciam sem uma definicao mais clara das linhas de conflito em
casa. A resistencia ao capitalismo esta, efetivamente, em toda parte,
inclusive nas suas areas centrais (e convem lembrar que a dinamica centro-periferia
se repete como um fractal em todas as partes do mundo, inclusive naquelas
mais genericamente tidas como perifericas); uma das subjetividades que
sobrevivem aquele periodo, contudo e que pode ser identificada
em varios participantes da AGP e a de atencao preferencial a organizacao
de base em regioes como Asia e America Latina, nas quais o grupo europeu
de apoio da AGP ainda tem, devido as obvias diferencas materiais, desempenhado
um papel de estabelecer contatos, abrir discussoes e auxiliar na captacao
de recursos.
Uma terceira subjetividade, porem, se volta justamente
a questao da luta em casa, e comeca a se concentrar nas questoes
imediatas do contexto europeu. Isso pode ser visto, por exemplo, entre
os grupos que estao mobilizando contra a aprovacao da Constituicao Europeia
em 2005. Outras lutas transversais mais imediatas locais que se fizeram
visiveis foram a discussao em torno do copyleft e da propriedade intelectual,
que, ao contrario do que alguns podem pensar, nao diz respeito apenas
a alguns geeks desenvolvendo softwares, mas a tod@s na medida em que encara
a tendencia imanente do conhecimento de se tornar de comum acesso sob
suas novas formas de producao, com relevencia evidente para qualquer discussao
sobre o futuro do conhecimento, se estendendo desde a universidade a industria
farmaceutica e a biodiversidade.
Mas foi um outro processo de (re)criacao mais profundo,
que aponta para uma tendencia de reterritorializacao tanto espacial
como politica que mais chamou a atencao nesse FSE.
O que mais interessa nesse processo e como trata-se,
claramente, de capturar subjetividades difusas deixadas pelo caminho com
as transformacoes dos ultimos anos e transforma-las em uma nova subjetividade
de classe. Sai a multidao, conceito demasiado abstrato e problematico
para um uso politico imediato, entra o precariado: justamente a nova classe
formada pelo regime de acumulacao flexivel, os flexibilizados do mundo. Sem um emprego fixo, sem acesso ao estado de bem-estar social,
@s precari@s sao a contramao da tendencia historica do capitalismo de
diminuicao da jornada de trabalho: nunca se trabalhou tanto por tao pouco.
Mas mais que isso, fazem um recorte transversal de toda a sociedade contemporanea:
na medida em que a condicao de precari@ se estende, por exemplo, a questoes
de moradia e status legal, inclui tambem a luta de imigrantes, sem papeis
e outras que tambem se fizeram visiveis nos espacos autonomos.
Apesar do evidente sucesso desse debate no FSE
com a chamada para a organizacao em toda a Europa de um Primeiro de Maio
do precariado em toda a europa, a exemplo do ocorrido ano passado em Milao
e Barcelona , e claro que alguns problemas permanecem (como a falta
de solucao teorica para as evidentes diferencas materiais entre precari@s
materiais e imateriais, ou como essa nova identidade da luta europeia
se relaciona com as lutas em outras partes), bem como os caminhos que
isso pode tomar, que incluem ate mesmo um neo-sindicalismo, ainda estao
abertos. Tambem e claro que a atencao atraida pelo conceito nao e a garantia
da existencia sequer criacao dessa nova subjetividade; e
notavel que a Declaracao de Middlesex que chama para o Euromayday do ano
que vem inclui grupos que, ate outro dia, nao tinham o menor contato com
a ideia, nem nenhum trabalho nessa area. Alem disso, como toda reterritorializacao,
essa traz o risco do estabelecimento de liderancas, hierarquias, vanguardas;
por tudo isso, convem lembrar aos grupos que sairam dali comemorando a
vitoria de sua posicao a licao de Bologna em 1977: lavorare con lentezza.
5 De Londres a Atenas
O caminho entre Londres 2004 e Atenas 2006 comeca, em
novembro, por Paris, que recebe a Assembleia Preparatoria de avaliacao
do processo que passou e inicio da discussao do que vira. Nao parece muito
esperar que se torne no enterro completo da etapa inglesa: e pouco provavel
que o Socialist Action continue interessado, e o SWP provavelmente dara
as caras para defender o indefensavel, e voltara ao seu papel de antes,
entre o coadjuvante e o extra.
E de se imaginar que a avaliacao seja dura, mas tambem
pode-se imaginar que algumas nao mudarao. Infelizmente, apesar de essa
ter sido a ocasiao de seu envolvimento mais produtivo, parece pouco provavel
que os novos movimentos europeus, depois de todo o acontecido em Londres,
estejam menos desconfiados em relacao ao Forum. E de fato, o evento oficial
em Londres tentou, mais que nunca, ser uma maquina de captura, um homogeneizador
de discursos para fins politicos imediatos.
Mas e justamente no fato de a tentativa de controle
ter fracassado isto e, ter funcionado em Alexandra Palace apenas
para fortalecer os espacos autonomos que se podem buscar algumas
conclusoes iniciais.
Em primeiro lugar, a discussao sobre dentro/fora, mais
do que nunca, mostrou-se vazia. O que era o FSE? Alexandra Palace ou o
Beyond the ESF, ou o Life Despite Capitalism, ou o Laboratory of Insurrectionary
Imagination? No sentido que me parece mais correto, todos. Se os Foruns
serao capazes de expressar a diversidade do movimento que pretendem reunir
e servir como nova arena publica, sera por sua capacidade de abrigar o
conflito, nao de subsumi-lo sob uma capa de falso consenso. Nisso, o processo
ingles, com todos os seus problemas, aponta para uma possibilidade promissora
no seu reconhecimento (implicito e explicito, na forma de inclusao na
programacao oficial) dos outros espacos; um Forum como uma constelacao
de espacos auto-organizados sem um centro parece muito mais interessante
que o formato atual.
Na questao de formatos, essa edicao demonstra a possibilidade
de transcender os limites obvios que os Foruns ate aqui centrados
nas plenarias para os grandes nomes, que normalmente resultam em analises
gerais e platitudes sem um impacto visivel, ou nas oficinas e seminarios
de duas horas em que qualquer convergencia e acao comum sao resultados
improvaveis tem apresentado. Na experiencia do Life Despite Capitalism,
por exemplo, e suas sessoes entrecruzadas que duraram um dia e meio, ou
na programacao (nao explicitamente organizada, mas ainda assim efetiva)
em torno do tema do precariedade, que fez com que aqueles que participaram
tivessem algum sentido de aprofundamento da discussao antes da Assembleia
do Europrecariado. Ate hoje os organizadores se fizeram a pergunta de
como os Foruns poderiam ser menos diagnosticos e mais construtivos, sem
questionar radicalmente o formato com que trabalhavam; esses sao caminhos
a serem explorados.
Outra licao, aprendida a duras penas neste FSE, e a
necessidade de incorporar a potencia criativa do movimento, capaz de resolver
por si so questoes como comunicacao, traducao e alimentacao.
Uma pergunta seria que fica e sobre as condicoes de
financiamento: tod@s sabem que este FSE terminou por ser, ao fim e a cabo,
vendido ao GLA, unica entidade capaz de dar-lhe sustentacao financeira.
Se este e o preco a pagar, convem pensar em como transformar a estrutura
e o formato do Forum o que nos leva de volta aos pontos anteriores.
Por incrivel que pareca, a grande licao desse ano parece
permanecer sendo aquela que tod@s ja ouviram varias vezes (sem talvez
ve-la na pratica): o Forum encarado como evento e inutil, um espetaculo
vazio e sem resultados praticos; como processo, ele se abre a novas desterritorializacoes
e reterritorializacoes, novas combinacoes e recombinacoes,
Um problema que permanece e o do fechamento do processo
em si; nao ha, desde o inicio, nenhuma renovacao notavel entre os participantes
realmente envolvidos, e nao parece provavel que os sindicatos ingleses,
por exemplo, continuem interessados depois deste ano; isso resulta em
um processo autista e auto-referencial. A consequencia disso este ano
foi obvia: quando decidiu-se entregar a Inglaterra a responsabilidade
de organizar essa edicao, essa foi usurpada pelo unico grupo envolvido
ate entao.
Nisso, talvez o contexto europeu possa ajudar. Por um
lado, os sindicatos e os partidos que seguem manobrando no interior do
processo tem suas bases sociais establizadas, com poucas possibilidades
de crescimento; por outro, a guinada dos novos movimentos para as questoes
europeias abre a necessidade de dialogo, que deve criar nao consensos
nem mediacoes, mas protocolos de relacao que criem a possibilidade de
contatos menos tensos e mais construtivos no futuro.
6 Licoes de casa: os novos territorios
As conclusoes tiradas acima valem nao apenas para o
FSE, mas para Foruns Sociais em geral. As reflexoes que seguem sao uma
tentativa de traducao do evento-Londres 2004 para outros contextos, ou
o contexto brasileiro em particular.
O PT que chegou ao governo federal encontra-se em estagio
avancado de reterritorializacao. Nao se trata aqui de julgar a politica
economica, ou o recuo na questao dos transgenicos, ou a aposta no agribusiness:
a questao e muito mais analisar o progressivo coagulamento do que houve
de vivo e pulsante na experiencia petista, como ela deixou de ser fluxo
e tornou-se estrato.
Se na sua origem o PT foi um experimento rico em termos
de democracia, pluralismo e organizacao de base, o que se ve hoje e bem
diverso: liderancas populares transformadas em politicos, militantes transformados
em profissionais a comissao, tendencias disputando palmo a palmo espacos
nas instituicoes e uma cupula que governa sem discutir com a base, seja
a do congresso, seja a social, e mantem o partido amordacado.
E um governo, como nao poderia deixar de ser nas suas
condicoes historicas especiais, marcado pela esquizofrenia: por um lado,
uma politica internacional positiva, embora com recuos serios na area
da ALCA, e uma politica cultural inteligente em relacao a propriedade
intelectual e ao audiovisual; por outro, a continuidade da criminalizacao
das radios livres e comunitarias, e a aposta numa alianca com o grande
capital rural e industrial como solucao para a dependencia economica externa.
Ambos os lados, porem, partem muito mais de decisoes executivas tomadas
em Brasilia que da discussao com qualquer forca social. Ai esta o problema
mais grave desse governo: a perda do valor pedagogico e politizador que
o PT teve no passado; ao chegar ao poder, o grupo que o controla optou
por, ao inves de buscar alternativas de abertura da participacao popular
no governo (algumas delas, como o OP, experimentadas pelo proprio partido),
preferiu seguir a mesma formula de sempre do jogo politico: tornou-se
mais uma elite politica que negocia diretamente com outras elites politicas.
Dada a sua quase onipresenca em todas as areas e lutas sociais dos ultimos
vinte anos, o PT hoje se parece cada vez mais com uma maquina de input
imenso (toda sua base social, todas as organizacoes sociais a ele relacionadas)
e de output minimo; um anteparo, mais que uma mediacao, entre a luta social
e o jogo politico.
A completa reterritorializacao pode ser o prenuncio
de uma desterritorializacao: certamente nao um estouro, mas um sutil e
gradual rearranjo. E nessas linhas de fuga que devem estar as apostas:
identificar as potencialidades e saber afeta-las.
A nova geracao politica no Brasil nao tem
a caminhada que ocorreu na Europa; o grande momento de desterritorializacao
do fim dos anos 90 nao ocorreu no Brasil, ou ocorreu de forma muito pequena.
Mas ficou a subjetividade daquele momento, e a situacao do movimento europeu
hoje nos serve como convite a reflexao sobre as possibilidades que nos
vivemos. Nem copia, nem rejeicao, pois ambas sao mal-informadas: reflexao
e antropofagia.
Em primeiro lugar, a necessidade de reinvencao: a criacao
de novas subjetividades, subjetividades monstruosas, anormais.
Crescemos nos mesmos anos em que cresceu o PT, e o cenario politico em
que nos movemos e afetado por sua presenca de atrator estranho. E nesse
cenario que encontraremos os elementos com os quais essas novas subjetividades
e outras politicas poderao ser construidas. Isso passa por tres medidas
de precaucao.
A primeira e a renuncia a militancia reativa
isto e, a renuncia ao binarismo, ao nos somos isso e eles sao aquilo,
as posicoes de principio: ter como agenda atacar o(s) partido(s)
e sempre ainda segui-los de alguma forma; o requisito para poder conectar-se
a esses elementos que criarao novos fluxos e nao estar preso a uma identidade
imutavel. A verdadeira oposicao nao e entre partido e nao-partido, mas
entre movimento (fluxo) e nao-movimento (estrato).
A segunda e a recusa do obreirismo: a auto-negacao,
o discurso de que isso de um movimento social autonomo e uma patologia
de gente de classe media, e que a verdade esta sempre no oprimido
romantico e idealizado. Na fabrica social, somos todos operarios; nao
e a auto-negacao, mas a auto-consciencia que nos permite perceber quais
sao as linhas de conflito que nos cercam imediatamente, e como elas se
comunicam com outras linhas em outras partes. A resistencia esta
em toda parte. Nesse sentido, o conceito de precariado se apresenta
como uma das ferramentas teoricas mais promissoras dos ultimos tempos,
capaz de criar algum terreno comum entre trabalhadores imateriais e sem-teto,
entre estudantes e prestadores de servico. Trata-se de uma nova subjetividade
de classe, antes que de um conceito sociologico de contornos ja bem definidos.
A terceira e a fuga da auto-referencialidade: a enfase
tem que ser menos em construir os nossos espacos e mais em
construir encruzilhadas, eixos, conexoes. Ha algumas lutas especificas
como a contra a propriedade intelectual e saberes especificos
da condicao de trabalhador imaterial que tem relevancia imediata para
todas as formas de luta. E nesse contatos com os sem-teto, com
as associacoes comunitarias, com os movimentos de favela que uma
alternativa pode comecar a se constituir.
Bem-vindos sejam os novos fluxos.
Cobertura completa dos espacos autonoms:
www.indymedia.org.uk
Declaracao de Middlesex:
http://italy.indymedia.org/news/2004/10/664510.php
Rodrigo Nunes e doutorando em Filosofia pela Universidade
de Essex, Inglaterra, e membro do Clandestine Insurgent Rebel Clown Army
e participou da UK Horizontal Network durante o periodo de organizacao
do FSE 2004.